E as crianças, de quem são?

Nossas crianças estão nas ruas pedindo ajuda e a única coisa que fazemos por elas é conta-las estatisticamente ou apenas fechar o vidro automático do nosso carro do ano. Elas tentam chamar a nossa atenção. Primeiro pedem dinheiro, algumas ainda se esforçam e fazem malabarismos, os insensíveis acham graça e jogam uma moedinha que não muda nada na vida daquela criança, no mínimo pode ajudar a comprar um pão ou uma pedra de crack.

Quando se chega a uma determinada idade, ou até antes disso, pedir dinheiro já não resolve, é preciso de mais e elas partem para a marginalização. Refiro-me à grande maioria e não aos sorteados pela mega-sena que conseguem uma fada madrinha ou padrinho mágico. Estamos falando das crianças que vemos nas ruas e que no máximo sentimos pena.

Em nossa consciência não podemos, não queremos e não temos tempo para mudar o mundo. Esta é a questão, quando as suas infrações não passam de crimes famélicos ou quando partem para a prostituição, digamos que ainda estão pedindo socorro. O problema é quando elas não querem mais ajuda, ou pior, quando a ajuda recebida é uma Fundação Casa da vida que se não matar aqueles jovens, aprimora os seus dotes criminosos.

É na transição do pedido para a imposição, que não percebemos a nossa parcela de culpa. Agora elas não farão mais malabarismos, farão terrorismo; não estenderão as mãos, você que levantará as suas; não andarão com brinquedos velhos, estarão armadas.

E no momento em que matarem algum ente seu,você as perceberá, mas não as enxergará. Talvez seja aquele menino que na sexta-feira passada estava embaixo do viaduto a 7ºC, o autor do assassinato do seu filho. Mas agora você já não vê uma criança, vê um monstro. De repente a vítima da sociedade vira o seu altroz.

E em um momento de fúria você se vestirá de luto, mobilizará a Nação e pedirá a redução da maior idade penal. E em nenhum momento assumirá a sua parcela de culpa, em nenhum instante se preocupará em modificar este lamentável quadro social.

Você enxerga apenas as soluções mais cômodas, afinal, presas elas não farão mal a ninguém, somente umas às outras, talvez seja melhor tirar o problema do seu campo de visão e ele estará solucionado, como alguém que não quer arrumar a bagunça e coloca tudo no armário de qualquer jeito. O seu ambiente externo fica em perfeita harmonia mas o problema continua e a qualquer momento pode desabar em sua cabeça.

Anúncios

Tags:, , , , ,

About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

One response to “E as crianças, de quem são?”

  1. Renato Fel. says :

    Muito bem abordado o assunto, é bem por aí mesmo… as pessoas só pensam no seu próprio umbigo e se esquecem do coletivo.

    No Brasil de quase nada vale o Estatuto da Criança e do Adolescente.

    SOOOOCOOOROOOO!!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Ensaios de Gênero

Um espaço para se ensaiar política, educação, feminismo e coisas do gênero...

Feminismo Ráiot

música + feminismo + faça você mesma

Joanah Dark

Performance, Fotografia e Feminismo.

Café Feminista

Por Cely Couto

FeminismUrbana

Textos, artigos, imagens, quadrinhos, opiniões. A idéia é juntar quem está pensando as cidades na perspectiva feminista, no Brasil e na América Latina.

feminismosemdemagogiaOriginal

Blog da página Feminismo Sem Demagogia - Original

Alemão com Frau Santana

A Alemanha bem perto de você.

O Fim da Eternidade

(Isaac Asimov)

Colunas Tortas

mais que uma opinião

Marcha Mundial das Mulheres

Feminismo 2.0 até que todas sejamos livres!

Blogueiras Negras

"Quem não quer raciocinar é um fanático;quem não sabe raciocinar é um tolo; quem não ousa raciocinar é um escravo"

Quem o Machismo matou hoje?

No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias vítimas da violência doméstica. Você sabe quem elas são?

%d blogueiros gostam disto: