O silêncio das vítimas

A nossa sociedade têm um hábito cultural perverso de culpabilizar as vítimas. Nos crimes contra a vida, a dignidade moral e sexual, sempre encontramos alguém pronto a nos mostrar que a vítima teve a sua parcela de culpa. É a mesma coisa de dizer o famoso “Fez por merecer”.

O que há de se esperar então da vítima de violência doméstica, que “conhece” tão bem o seu agressor? Segundo a nossa sociedade, culpada.

Nos casos de violência doméstica contra a mulher, o discurso é sempre o mesmo: “Em briga  de marido e mulher ninguém mete a colher’, “foi ela quem escolheu o marido”, “apanha porque quer”. Convenhamos que todas as afirmativas são absurdamente erradas. Ninguém quer casar ou conviver cm uma pessoa violenta. Posso garantir que uma mulher nessas circunstâncias não escolheu sofrer, muito pelo contrário, escolheu amar.

Mas aí surge a clássica pergunta: “Por que ela não denuncia?”. Por se tratar de um crime peculiar e protegido pelo manto doce do lar, a situação é complicada. Há diversos valores subjetivos que devem ser levados em consideração e é com base neles que tentarei responder tal questão.

Seguem enumerados dez motivos que dificultam a mulher de romper uma relação violenta.

  1.                  Medo: Como toda e qualquer vítima, ela teme que o pior aconteça, seja a ela ou aos filhos (se for o caso);
  2.                  Isolamento: Muitas vezes essa mulher acaba tendo seus laços familiares enfraquecidos. Seja por motivos próprios da estrutura familiar, seja pelo relacionamento conturbado.
  3.                 Vergonha: A mulher em situação de violência sente vergonha do que passa. Ela nunca vai dizer que apanhou, mas cai da escada diversas vezes. Isso sem levar em conta que a sociedade prega que ela não soube escolher o marido/companheiro.
  4.                 Desinformação: A violência doméstica não se trata somente de agressão física, ela pode ser psicológica, financeira etc. Há de se falar até em estupro dentro do casamento. Ocorre que muitas mulheres não conseguem identificar o abuso e tendem a naturalizar tal comportamento violento;
  5.                  Insegurança: E depois de denunciar, o que acontece? O medo do inserto, de não ter ninguém por perto, de como a sociedade irá reagir à situação. Tudo isso contribui para o silêncio da vítima;
  6.                  Dependência psicológica: Ah, o amor. Amor? Sim, esta mulher ama e ainda que isso não seja recíproco ela quer aquela pessoa ao seu lado e não se vê sem ela. Este é um dos fatores mais perversos de dependência, o qual leva muitas a desistirem da ação penal. Não é que elas desconheçam o mal que sofrem, mas essas mulheres querem que seus parceiros melhorem (ainda que nós que estamos fora da situação achemos isso impossível) e permaneçam ao seu lado;
  7.                  Falta de Apoio Familiar: Com os laços afetivos enfraquecidos, o apoio familiar a esta mulher é escasso. Há ainda que se falar em culpabilizá-la pelo “fracasso” no relacionamento, de dar “motivos” para a agressão, ou de simplesmente não aceita-la de volta;
  8.                  Dependência financeira: Muitas mulheres que optam por abandonar, ou simplesmente não ter um trabalho remunerado para ficar em casa fazendo as atividades domésticas e cuidando dos filhos tem este problema. Vale ressaltar que não é somente nesses casos, mas isso influencia grandemente na decisão;
  9.                  Desconhecimento ou dificuldade de acesso aos serviços de atenção especializados: A primeira e grande dificuldade é romper a relação violenta, o que não é fácil. Depois disso, saber onde procurar ajuda, ou ainda saber que há ajuda para estes casos;
  10.                Permanece porque tem certo controle da situação: Por se tratar de uma relação de convivência, no decorrer do tempo essa mulher consegue perceber formas de acalmar o agressor. Comida preferida, presente, sexo. Seja qual for o método, ela pensa que pode suportar um pouco mais.

 

Conforme o exposto, percebemos que não se trata somente de querer, mas o primeiro passo deve ser dado. A situação é complicada e a solução não vem tão facilmente, mas é preciso ter forças para romper esse ciclo perverso de violência.

Por isso, antes de condenar uma vítima de violência doméstica, procure denunciar o agressor.

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

5 responses to “O silêncio das vítimas”

  1. Rejane says :

    Muito bom! Estou estudando esse assunto de forma mais cuidadosa e crítica. PArabéns!

    • Tica says :

      Que legal que está estudando esse tema, Rejane!

      Depois compartilhe suas experiências e conclusões!

      Beijos!

      • Rejane says :

        Então… após 2 anos ininterruptos de convivência com mulheres vítimas da violência doméstica e familiar, pude perceber que um dos fatores determinantes para que esse ciclo não se rompa, é a questão da dependência e suas várias manifestações.. uma delas é a econômica, sim, considero essa umas das piores.. uma vez que a mulher tem dificuldades de se inserir no mercado de trabalho após tantos anos sendo impedida pelo companheiro de exercer alguma atividade laboral… é triste isso! Um direito que está sendo tolhido pelo agressor. Pretendo estudar mais ainda sobre esse poder que o homem exerce e comportamento que a mulher apresenta diante de tantos conflitos dessa natureza.. é algo a se esclarecer.. o que verdadeiramente as leva a continuar assim?

        Abs!

      • Tica says :

        Rejane, acho que além de estudar a questão do poder/influência que o homem exerce sobre essa mulher vítima, acho que pode acrescentar à sua pesquisa a influência social/familiar.

        A dependência econômica é um fator muito forte, mas há mulheres de classe média que sofrem violência e que continuam com o agressor, lembre-se disso. Além do mais, a dependência psicológica é algo perigoso…Confundir a agressão com cuidado, não se ver mais como mulher, como indivíduo, mas só como mãe/esposa…Atribuir a si a responsabilidade pelo relacionamento “fracassado” etc.

        Enfim, o assunto é complexo e não se esgota.
        Não sei se assistiu esse vídeo, mas é muito bom: https://criticaconsciente.wordpress.com/2013/10/04/por-que-as-vitimas-de-violencia-domestica-nao-vao-embora/

        Estou super torcendo pela sua pesquisa!

        Ps.: Depois dá uma olhada nesse material:https://www.dropbox.com/s/miww334wzr90hph/Viol%C3%AAncia%20Dom%C3%A9stica.zip

        Beijão!

  2. Rejane says :

    Isso.. eu falo acerca das classes sociais na qual essa mulher está inserida, e que nem por isso ela deixa de ser vítima das agressões.. vou assistir aos vídeos.. valeu pela colaboração e parabéns pela militância nesse assunto.. pois merecemos e precisamos de pessoas assim.. que levantam a bandeira com força dessa luta! Amei seu blog!!!

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