A orientação sexual do Lanterna Verde te desorienta?

Há pouco tempo a DC fez uma revelação ‘bombástica’ que Alan Scott, o primeiro Lanterna Verde, era homossexual.

Choveram comentários em todas as redes sociais. ‘Gay’ e ‘saiu do armário’ foram os termos mais usados, termos esses com os quais não simpatizo muito.

Não acompanho e nem nunca acompanhei as HQ’s do Lanterna Verde e o pouco que sei da história do personagem se limita à Liga da Justiça e ao filme tosco com Ryan Reynolds interpretando o Hal Jordan – que é um dos lanternas verdes mais famosos. Mas o que eu queria mesmo era falar sobre a orientação sexual do personagem.

Rezam as más línguas que esse posicionamento da DC em ‘revelar’ um super-herói homossexual vem de encontro com o discurso do Obama no sentido de ser favorável à união de pessoas do mesmo sexo. Há ainda quem fale que isso não passa de um golpe de marketing para fidelizar a faixa crescente de homossexuais que começaram a ler HQ’s – como se HQ fosse coisa de hétero. Enfim, são várias as teorias da conspiração, mas uma coisa é certa, os leitores de HQ’s vão ter que se habituar a um mundo cada vez mais real dentro da ficção.

Eu adoro esse universo das revistinhas, leio desde criança (Asterix, Calvin & Haroldo, TinTim etc), mas comecei mais fortemente com Spawn – que está voltando!-  e O Homem Aranha. Como qualquer coisa nesse universo patriarcal machista, HQ não era coisa de menina e ainda que estejamos numa civilização um pouco diferente daquela da minha infância, para alguns HQ ainda é coisa de macho e percebemos isso pelos comentários e desespero que as pessoas manifestaram diante da notícia do Lanterna Verde, principalmente porque se sentiram chocadas com a cena do beijo.

Acho fantástico que uma criança/ adulto/ idoso que seja fã de um personagem por todas as características que ele tem se depare com essa revelação, afinal, a nossa orientação sexual não muda nosso caráter. Somos todos iguais enquanto seres humanos, alguns mais seres que humanos, e mostrar ao público que independentemente da sexualidade de determinado herói, ele continuará sendo ele é uma forma de desmistificar esses ‘conceitos’, ou melhor, preconceitos, que a sociedade tem sobre a homossexualidade, o que é muito importante e considero sim um avanço independentemente do que o desencadeou no universo das HQ’s.

O Lanterna Verde não é ‘afeminado’ e não usa roupas do gênero feminino, mesmo assim ele é um homossexual e se isso te desorientou, talvez esteja na hora de rever os seus conceitos.

Numa sociedade que considerou a homossexualidade uma doença, que espanca uma pessoa por amar outra só porque elas têm o mesmo sexo e as priva de direitos civis, precisamos mesmo é quebrar determinados paradigmas. Espero realmente que isso mude a mentalidade das pessoas e que diante de uma notícia como essa, não venhamos a nos ‘chocar’ com a homossexualidade e sim com a homofobia.

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

4 responses to “A orientação sexual do Lanterna Verde te desorienta?”

  1. Vinicius says :

    Nessas horas que desabam um monte de comentários cospiracionistas ( “é tudo uma grande trama das indústrias de quadrinhos para conseguir mais consumidores”). Esse discurso ainda mostra uma certa dificuldade em imaginar que, simplesmente, o Lanterna Verde seja homossexual, ponto final. Sem tramoias.

    • Tica says :

      Vinicius,

      Como eu não acompanho a HQ, nem tenho propriedade para falar se foi ‘simplesmente’ ou não. Parece que nessas edições que se seguem depois da revelação contarão melhor o que houve e eu até tenho interesse em ler um dia.

      Acontece que realmente não podemos descartar a possibilidade da DC estar se aproveitando da situação, o que não nos surpreenderia, mas como citei acho interessante que as pessoas se acostumem com as pluralidade de orientações sexuais também nas HQ’s.

      Vale ressaltar qye esse negócio de atrair mais consumidores não me soa muito autêntico. Não são só os héteros que gostam de HQ, e nem só os homens também.

      Enfim, como as crianças vão reagir diante disso? Serão elas privadas de lerem as HQ’s? Tudo depende de como a sociedade absorve isso.

      • Vinicius says :

        Sim, mas a noção conspiracionista, a própria lógica de que ha uma força manipuladora por trás dos atos cotidianos e, desta forma, se justifique a “reviravolta” do lanterna verde (por que dizer que é jogada de marketing é justificar a orientação sexual do herói em detrimento da significação desta orientação) já demonstra uma certa distância da questão da sexualidade.

        Quando há este distanciamento, se percebe que ainda não há trato da sociedade a respeito deste tipo de assunto. Ele vira secundário e acontece o que vc disse: infortúnios sobre quem poderá ler e quem será proibido de ler a revista (seja lá por qual motivo, até mesmo por ser muito preconceituoso e não conseguir ler uma história com um personagem gay sendo principal).

        Mas, repara, o núcleo da questão ainda continua na questão do marketing, como se a culpa do preconceituoso proibir o filho de ver uma revista com personagem gay fosse do marketing da editora, e não de sua homofobia.

      • Tica says :

        Isso mesmo!
        Como falei, independentemente de qual tenha sido a ‘teoria da conspiração’, o tema foi introduzido nesse universo até então inexplorado por essas questões de gênero. O que vale à pena é discutir o que virá pela frente, como o caso da criança que citei. Mas como você mesmo disse, isso é deixado de lado e a discussão volta para o ‘marketing’, acabam preocupando-se mais com essas questões do que com a própria homofobia, que é largamente vista nos comentários nas redes sociais e mídia. E ainda usarão a desculpa que NÃO vão mais ler a HQ porque foi uma jogada de marketing, né?!

        Mas sabe, Vinicius, esse hábito de mudar o foco da questão ainda está muito longe de mudar. É uma forma que as pessoas encontram para fugir de assuntos sérios e problemáticas sociais relevantes.

        Às vezes eu não sei dizer se as pessoas são realmente alienadas ou se fazem de alienados para eximirem-se de pensar.

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