A vida aqui só é ruim quando não chove no chão

 

Nordeste, sim ele. Que por incrível que pareça fica no Nordeste mesmo, ao contrário do que os leigos e geralmente preconceituosos dizem. O Norte é para o outro lado, meus amores, qualquer Rosa dos ventos poderá lhes ensinar isso.

Enquanto nordestina me sinto ofendida, não com os comentários pejorativos em si, mas porque são vindos de pessoas que sequer tem a mínima noção de sua própria origem.

Pois é, nós, os nordestinos, “invadimos” os espaços urbanos dos grandes centros metropolitanos e viemos com nosso linguajar regionalista ofender os bons costumes de quem passou da Belle Époque pra o American Way of Life com classe. Que tipo de brasileiros “sem cultura” somos nós, afinal?

Isso sem falar no SUS, nós tomamos todas as vagas do SUS! E eu que por um momento pensei que o problema da rede SUS era o governo, mas não, são os nordestinos. Aquele povo que veio no pau de arara buscar um sonho, o povo que construiu a maioria dos prédios que ostentam a superioridade arquitetônica das grandes cidades, o povo do chão das fábricas. Povo.

Acho que é aí que mora a problemática. As pessoas não querem ser povo, querem ser indivíduos – na concepção individualista – querem ser únicos, superiores. E aí vem o preconceito, se bem que, a essa altura do campeonato, com a internet acessível a todos, não é mais preconceito não, é alienação.

No geral, as pessoas não têm e não querem ter consciência de mundo, simplesmente ofendem, humilham, rebaixam. Como se tentassem tornar o outro algo menor do que a sua própria insignificância, é só um modo de se auto-afirmar quando não se é nada.

E não adianta mostrar que os nordestinos são capazes – e porque não seriam?; Mostrar que o Ensino Fundamental e Médio no nordeste foi eleito o melhor do país; ensinar História e Geografia para esses xenófobos ou simplesmente bater neles com algum livro do Hobsbawm para que tenham noção de mundo. Não adiantaria.

Esse discurso pauta-se em moldes de uma sociedade patriarcal capitalista doente e sem valores que precisa dessa diferenciação, da divisão de classes, da sobreposição do capital. Eles precisam, é isso o que os define.

O Nordeste pode ser uma região, no agreste principalmente, que sofre de uma miséria lastimável. Falta água, comida, emprego. Falta, contudo, o papel do Estado com políticas públicas. Nós adoramos julgar, mas não vemos que a maioria das desigualdades sociais nas quais vivemos é fruto do sistema econômico que rege esta sociedade somado à corrupção que se tornou, infelizmente, sinônimo da nossa política.

Mas o Nordeste, por outro lado é rico em cultura, disso não podemos reclamar. O Nordeste não é só praia, é povo, África, Castro Álvares, é a história do Brasil também. É a sua história!

Ofender o nordestino é ofender a história do seu país, SUA cultura. Porque você pode amar os EUA, ou qualquer outro lugar do mundo, mas você nasceu aqui e a sua história começou no Nordeste.

 

 

 

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

One response to “A vida aqui só é ruim quando não chove no chão”

  1. Jairo Cordeiro says :

    Lendo esse post, fico pensando, porque será que nós nordestinos incomodamos tanto?
    Será que é a determinação e força de vontade que temos para enfrentar os obstáculos e vencer as dificuldades?
    Ou será a capacidade de querer ser feliz, e viver plenamente, apesar de todos os problemas?
    Pode ser também o orgulho que temos em pertencer ao berço cultural desse País, de fazer parte de uma cultura 100% nacional, que sabe dá valor ao que realmente tem valor.
    Bem, sabemos que o “preconceito” ás vezes é a forma mais camuflada da “inveja”, e sendo assim, só nos resta repetir a frase do grande escritor Ariano Suassuna: “Não troco meu oxente pelo OK de ninguém!”.

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