O Jardim de Cimento | Ian McEwan

O Jardim de Cimento foi o meu primeiro contato com Ian McEwan, antes disso só conhecia o autor através de amigos ou citações sobre seus outros livros. Este foi um dos seus primeiros romances, mas foi por coincidência que comecei por ele e esta acabou sendo uma das experiências mais viscerais que tive.

O livro é curto, são menos de 130 páginas da edição de Bolso da Cia das Letras. No primeiro momento tanto seu tamanho quanto sua introdução nos parecem inofensivos, o que não passa de um mero engano porque ele literalmente ultrapassa o seu tamanho e profundidade. Ele te agarra e dilacera de tal forma que não há outro caminho a seguir que não sejam as suas páginas, suas curtas e intensas páginas.

O romance conta a história de quatro irmãos que vivenciaram a morte de seus pais e se vêem diante de um dilema que marcará profundamente a história.

Contado na primeira pessoa por um dos irmãos, Jack, um rapaz de cerca de 15 anos que enfrenta o conturbado período da puberdade e adolescência em si, a história ganha um toque pessoal e chega até a fugir da ficção para a realidade.

Não matei meu pai, mas às vezes tinha a impressão de que o havia ajudado a ir desta para melhor […] sua morte pareceu insignificante quando comparada ao que veio depois

O lar passa a ser o núcleo central de toda a trama, onde os jovens lidam das mais diversas formas com as tragédias vividas e acabam formando, sob certa perspectiva, uma nova estrutura familiar que inconscientemente visa preencher o espaço deixado pelos pais.

Desta forma, fechados em seu mundo, eles experimentam dos sentimentos mais comuns aos mais singulares. Aos poucos, a inocência pueril vai sendo deixada de lado e alguns desejos inofensivos acabam se tornando a descoberta da própria sexualidade. Desejos proibidos vão surgindo e até questões sobre gênero e moral são suavemente abordadas.

O ápice dos conflitos da trama ocorre porque a irmã mais velha, que acabou assumindo o papel de matriarca, começa a se relacionar com um rapaz que acaba lentamente penetrando cada vez mais naquele núcleo familiar. A chegada desse intruso acaba desestruturando aos poucos o ambiente ao ponto de fazer com que o maior segredo dos irmãos passe a correr perigo.

O final por sua vez é perturbador e realista demais pra uma mera ficção.

Nota de rodapé

O livro foi adaptado para o cinema em 1993

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

2 responses to “O Jardim de Cimento | Ian McEwan”

  1. Deh Capella (@dehcapella) says :

    Minha nossa. Esse livro me marcou demais, de um jeito estranho. A trajetória dos irmãos avançava, se tornava mais triste e mais sombria, mais fora de controle. Mas eu não conseguia deixar de lado, com a esperançazinha de que algo fosse dar certo ali, de que fosse doer menos, afinal. Você descreveu bem: dilacera.

    Esse foi meu segundo McEwan, o primeiro foi “Reparação”, que recomendo demais. O mesmo vale para “Serena”, fantástico, que li por último, logo após acabar “Amsterdam”, delicioso também. Ah, lembrei aqui que li também “Solar”, divertidíssimo (isso faz de “O Jardim de Cimento” meu terceiro McEwan, na verdade). Ele é um grande “construtor” de personagens e arruma para eles dilemas e situações bem interessantes.

    • Tica says :

      Ouvi falar muito bem desses livros que citou e anotei aqui na minha lista infinita! 😉

      O meu próximo livro dele será ‘Na Praia’. O ‘Serena’ perdi a chance de comprar mais barato na bienal e agora vou esperar uma promoção boa! Eu gostei bastante do McEwan e achei o final deste livro surreal. Como você, a cada página alimentava a esperança de que tudo se resolvesse de alguma forma, mas ainda assim achei o livro fantástico e um tanto perturbador!

      Logo que der vou conferir o filme que pelo que vi no trailer, é bem fiel ao livro!

      Beijo, Deh!!

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