Ajudar a mãe a lavar a louça?

Salvar o mundo?

Uma frase ‘inocente’ e até bonitinha se formos analisar superficialmente. Simples e com um tom provocativo, ela parece ter o objetivo de nos questionar sobre as nossas próprias atitudes no ambiente doméstico enquando nós questionamos as atitudes e os rumos que o mundo esta levando.  Afinal, se você não faz nada pelo seu próprio “mundo”, quem é você para mudar o Mundo enquanto um todo?

Sim, muitos se identificam com essa idéia e vi esta imagem compartilhada por muitos nas redes sociais.

O único problema é que a mensagem que lemos não é a única produzida ali. Tem uma coisinha subliminar que talvez tenha passado despercebida por muitos (ou não): O papel da Mulher, ou melhor, o papel imposto à Mulher.

Vejam que a nobreza da frase se limita ao “Ajudar”, que pra mim soa tão: ‘tô fazendo um favor já que a obrigação é sua’. É por isso talvez que quando se trata de trabalho doméstico, gosto mais da idéia de “dividir”, que soa mais como obrigações ‘para ambas as partes’. Para ver como o mundo é irônico, Mulher e trabalho doméstico são coisas tão interligadas e naturalizadas que nem sentimos estranheza em ler essa frase. Mas como seria a nossa primeira reação se a frase original fosse:

Todo mundo quer salvar o mundo…Mas ninguém quer ajudar o pai a lavar louça.”?

Não ia soar tão natural, admitam. Não seria tão nobre quanto ajudar a mãe, ela que está ali naquela frase no dia-a-dia; na TV; nas propagandas de detergentes Ypê; na sua casa.

O pai nessa oração soaria estranho porque aquele não é o seu habitat natural, nunca foi e se por um momento passou a ser, foi só pra “ajudar”, porque ele é muito legal.

E o que tiramos disso é essa ligação nítida entre a mulher ao ambiente doméstico. Levanto esta questão não como uma forma de implicância, mas de reflexão. É importante pensarmos nisso, em como é fácil reproduzirmos essa cultura patriarcal machista, até mesmo involuntariamente. É preciso que observemos com mais atenção o quanto estamos imersos nessa cultura que desvaloriza a mulher, que a coloca em segundo plano, que a sufoca numa oração onde o plural masculino pode representar o singular feminino.

O papel da mulher nessa frase não pode nunca ser visto como algo natural, mas naturalizado, aprendido. Afinal, como diria Bertold Brecht: ‘não digam nunca: “isso é natural” para que nada passe a ser imutável!’

[+] O Machismo da Linguagem

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

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