Prêmio Heleieth Saffioti

883891_487095514672316_1660305460_o

Militar não é fácil. Construir dia-a-dia nosso próprio espaço dentro de uma sociedade desigual requer muito empenho, força de vontade e tempo, bem como aquela esperança de que se pode mudar o mundo. Lutamos não só pela conquista de nossos direitos, mas pela manutenção e efetivação dos mesmos, pois de nada nos serve ter direitos se não tivermos, em contrapartida, a plena possibilidade de exercê-los.

Aqui na cidade de São Paulo, como forma de reconhecimento à militância feminista de Combate à Discriminação de gênero e Defesa dos Direitos das Mulheres, foi criado o Prêmio Heleieth Saffioti.

O Prêmio foi instituído pela Câmara Municipal de São Paulo através da Resolução n.º 2 de 7 de março de 2012, o qual teve seu projeto proposto pela União de Mulheres de São Paulo e apresentado pela Vereadora Juliana Cardoso, e ocorrerá anualmente, sempre na segunda quinzena de março. Ele consiste na entrega de uma placa de honra às mulheres ou entidades de mulheres que tenham se destacado no combate às desigualdades de gênero no Município de São Paulo. O Prêmio em si não se limita somente à entrega da placa, significa mais, ele representa o reconhecimento de uma luta contra a desigualdade e uma visibilidade dos problemas e diferenças sociais aos quais a sociedade Patriarcal Capitalista nos submete.

No último dia 22, ocorreu a Sessão Solene de Entrega do Prêmio que contou com a participação de vári@s representantes da militância feminista e sua femenageada foi ninguém menos que a própria Heleieth, representada então por seu irmão.

881918_487095708005630_710254847_o

Ainda que para muitos o nome do prêmio seja auto-explicativo, me sinto no dever de lembrar o porquê da escolha do nome. Heleieth Saffioti, grande socióloga marxista e militante feminista (em plena época da Ditadura no Brasil), contribuiu enormemente para a luta em defesa dos Direitos da Mulher, sendo ela ainda, a própria expressão dessa luta. Sempre abordando a Mulher na sociedade de classes sob a ótica do trabalho, Heleieth foi a pioneira na América Latina nos estudos de Gênero dentro do universo acadêmico e enfrentou com a garra que lhe era peculiar todos os desafios e discriminações que essa escolha lhe trouxe, principalmente quando criou, em 1978, o primeiro grupo de estudos sobre Mulheres e Gênero.

Enquanto intelectual, propôs uma reflexão crítica e aprofundada sobre as condições das Mulheres e teve por sua vez vários livros lançados, dentre eles, o que ganhou mais destaque foi o livro “A Mulher na Sociedade de Classes”, publicado em 1969 e que será relançado pela editora Expressão Popular, conforme a coordenadora do Grupo de Estudos Heleieth Saffioti nos informou durante a referida premiação. Na sessão solene, fez-se ainda questão de destacar que para Heleieth, não se tratava somente de militar, mas de obter o reconhecimento acadêmico de seu trabalho, o trabalho de uma Mulher. Dentre todas as pedras no caminho, destacou-se a dificuldade que a mesma teve, em uma sociedade altamente patriarcal, de encontrar interlocutores dispostos a falar sobre a Condição da Mulher.

Por estes e diversos outros motivos é que se deu o nome de Heleieth Saffioti ao prêmio, para que todo ano, durante a premiação, possamos lembrar o quanto ela foi importante para a história do feminismo no Brasil e no Mundo.

O que faço(…) é sugerir a todos os jovens – moças e rapazes – um novo caminho, conduzente a uma sociedade manos injusta, menos inigua, menos castradora” (Heleieth Saffioti)

Conforme a Resolução que criou o Prêmio, as femenageadas pelo mesmo serão escolhidas por uma Comissão composta pelas seguintes entidades:

  • Comissão de Direitos Humanos da CMSP;
  • Comissão de Saúde, Promoção Social, Trabalho e Mulher da CMSP;
  • Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo;
  • União de Mulheres de São Paulo;
  • Centro de Informação Mulher;
  • Marcha Mundial das Mulheres
  • Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras – APSMN – SP

886430_487095454672322_1191456070_o

Em suma, pode-se dizer que a primeira edição do Prêmio foi emocionante. Tive a oportunidade de conhecer detalhes da vida e Heleieth que iam além de sua condição de acadêmica. Conheci a Heleieth vaidosa que ia de salto alto para as manifestações enquanto as companheiras iam de tênis prontas para correr da polícia; a Heleieth criança que convencia seu irmão a lhe comprar Maria-mole, seu doce predileto, com o dinheiro que ambos recebiam no domingo para gastar; a Heleieth amiga, que tantas saudades deixou para suas companheiras ali presentes; e acima de tudo, a Heleieth Mulher e exemplo de luta. Guardei todas elas comigo.

Anúncios

Tags:, , , , ,

About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Ensaios de Gênero

Um espaço para se ensaiar política, educação, feminismo e coisas do gênero...

Feminismo Ráiot

música + feminismo + faça você mesma

Joanah Dark

Performance, Fotografia e Feminismo.

Café Feminista

Por Cely Couto

FeminismUrbana

Textos, artigos, imagens, quadrinhos, opiniões. A idéia é juntar quem está pensando as cidades na perspectiva feminista, no Brasil e na América Latina.

feminismosemdemagogiaOriginal

Blog da página Feminismo Sem Demagogia - Original

Alemão com Frau Santana

A Alemanha bem perto de você.

O Fim da Eternidade

(Isaac Asimov)

Colunas Tortas

mais que uma opinião

Marcha Mundial das Mulheres

Feminismo 2.0 até que todas sejamos livres!

Blogueiras Negras

"Quem não quer raciocinar é um fanático;quem não sabe raciocinar é um tolo; quem não ousa raciocinar é um escravo"

Quem o Machismo matou hoje?

No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias vítimas da violência doméstica. Você sabe quem elas são?

%d blogueiros gostam disto: