Machismo, quando o buraco é mais embaixo.

CriticaConsciente_01 

Quando falamos de machismo, fica clara a idéia de que trata-se de um comportamento que tem como objetivo minimizar a mulher, de suprimi-la a ponto de torná-la nula enquanto indivíduo perante o homem. Há ainda que se falar que o machismo é um comportamento aprendido, porém, por estar tão naturalizado na Sociedade Patriarcal Capitalista na qual estamos inserid@s, arrisco dizer que para muit@s ele soa como um comportamento natural. Pasmem. E apesar de reconhecer e lutar contra este sexismo repugnante que devido a minha condição de mulher me oprime grandemente, devo admitir que ele não se limita a isso. Não somos só nós mulheres, transexuais ou não, as vítimas. Toda a sociedade o é. Seja você hétero ou LGBTTI, ninguém escapa. Logo, essa luta deveria ser de tod@s nós.

Contudo, há um questionamento que queria levantar nesta oportunidade: Seria o algoz também uma vítima?

Entendam, não estou querendo dizer que os indivíduos que cometem violência doméstica, homofobia ou qualquer outro tipo de crime devam ser vistos como “coitadinh@s”. Não, isso nunca. Mas gostaria que observássemos o quão perversa é essa lógica do machismo, porque vejamos: ela não só representa uma repressão contra a mulher, como, em contrapartida, exige um determinado comportamento do homem e até da sociedade em geral para poder existir.

Desta forma, quando digo que o machismo atinge a tod@s é porque ele consiste em um comportamento que inferioriza a mulher em relação ao homem e conseqüentemente exige do gênero masculino a perpetuação dessa suposta superioridade através de violência, imposição e domínio. Nessa dinâmica perversa, o gênero feminino também é protagonista quando, por sua vez, afirma ou perpetua tal comportamento, seja julgando uma mulher como ‘piriguete’ ou ‘vadia’ por seu modo de vestir ou se comportar sexualmente, seja afirmando que uma mulher vítima de violência doméstica ‘apanha porque quer’, ‘afinal ela quem escolheu o marido’; ou até achando que determinados lugares não são “lugar de mulher”, dentre outros exemplos intermináveis.

Por isso, ao menos pra mim, o machismo também oprime o algoz uma vez que o transforma em seu capataz, alguém que deve sempre obedecer suas regras, caso contrário será ridicularizad@ perante a sociedade. Isto porque, na sociedade alienada na qual estamos inseridos, ele, o machismo, se autodenomina guardião da moral e bons costumes e é sob a capa da “moralidade” que comete seus mais obscenos crimes.

O homem machista ou submetido ao machismo não chora, não é sensível, nem sequer pode ter uma orientação sexual diferente daquela socialmente imposta. Ele não pode em nenhum momento e sob nenhuma circunstância adotar qualquer comportamento que se assemelhe ao que foi imposto à mulher, sob pena de ter a sua sexualidade e virilidade postas à prova; sob pena de ser chamado de “mulherzinha” ou ser vítima de violência. Afinal, tem coisa pior para um homem do que ser visto ou se ver representado como uma mulher, aquele ser que o patriarcado julga inferior? Não, provavelmente não tem.

Porém, o machismo, esperto como é, não pára por aí. A mulher também não pode sair do papel por ele imposto, primeiro porque seria uma afronta ao homem que ela ocupe seu espaço, o espaço público; depois porque seria uma “concorrência perigosa” se ela resolvesse de um dia para o outro exercer o “papel de homem”, ou pior, ser lésbica ou transexual. E assim, ao ditar as normas comportamentais é que o sexismo consegue manter esta relação dialética sob controle, contando ainda com a ajuda da lesbofobia, homofobia e transfobia – que considero suas remificações – para esta contenção.

CriticaConsciente_04

É interessante notar que ao ditar regras comportamentais baseadas no binômio homem/mulher – e não necessariamente nos gêneros feminino e masculino, o que mesmo assim não deve existir – o machismo cria uma polarização artificial entre nós através da idéia de dominante e dominad@, vítima e agressor@, etc., o que gera um forte conflito, ainda que não exteriorizado por idéias e atitudes. Nasce, com isso, uma zona de tensão que por incrível que pareça, ao invés de desestruturar ou abalar essa relação, só a fortalece, num mau sentido, claro. Afinal, é papel do algoz manter a vítima em “seu lugar”seja pela violência psicológica, física ou até a morte, caso ela se atreva a tentar quebrar o paradigma. E ao fazer isso, passa a idéia de que ao colocar a vítima “em seu lugar”, ele está dando uma “lição” para @s outr@s, pois demonstra o seu poder de persuasão através da violência, que por sua vez é uma perpetuação do próprio machismo.

Desta forma, o machismo nos divide. Nos coloca em lados opostos numa guerra onde não há vencedores e nem, sobretudo, causa; nos alimenta com seu ódio e até nos impede de amar – e aqui me refiro a todo tipo de amor: dos amantes, dos amigos, das irmãs – e aí, se formos parar para pensar racionalmente, este comportamento tem a única finalidade de nos fazer sofrer, nos minimizar enquanto indivíduos e nos escravizar enquanto humanos independentemente de que lado da relação estivermos.

Portanto, precisamos lutar pela desconstrução desse “valor” cultural e todas as suas ramificações, o que na minha opinião depende de um esforço conjunto tanto dos oprimid@s em denunciar e combater esse tipo de violência, quanto do algoz em perceber o quanto sua atitude é preconceituosa, aprendida e danosa. Pois dadas as circunstâncias, acredito que só quando percebermos que tod@s nós somos vítimas do mesmo algoz é que machismo e seus subgêneros poderão enfim ser efetivamente combatidos.

CriticaConsciente_03

 

Anúncios

Tags:, , , , ,

About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

3 responses to “Machismo, quando o buraco é mais embaixo.”

Trackbacks / Pingbacks

  1. Machismo E A Cultura Do Estupro | Colunas Tortas - 19/04/2013

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Ensaios de Gênero

Um espaço para se ensaiar política, educação, feminismo e coisas do gênero...

Feminismo Ráiot

música + feminismo + faça você mesma

Joanah Dark

Performance, Fotografia e Feminismo.

Café Feminista

Por Cely Couto

FeminismUrbana

Textos, artigos, imagens, quadrinhos, opiniões. A idéia é juntar quem está pensando as cidades na perspectiva feminista, no Brasil e na América Latina.

feminismosemdemagogiaOriginal

Blog da página Feminismo Sem Demagogia - Original

Alemão com Frau Santana

A Alemanha bem perto de você.

O Fim da Eternidade

(Isaac Asimov)

Colunas Tortas

mais que uma opinião

Marcha Mundial das Mulheres

Feminismo 2.0 até que todas sejamos livres!

Blogueiras Negras

"Quem não quer raciocinar é um fanático;quem não sabe raciocinar é um tolo; quem não ousa raciocinar é um escravo"

Quem o Machismo matou hoje?

No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias vítimas da violência doméstica. Você sabe quem elas são?

%d blogueiros gostam disto: