Como tudo começou…

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Nunca queimei um sutiã, muito menos o tempo que dedico ao feminismo é aquele que sobra por falta de louça suja, isso eu lhes garanto. Poderia dizer talvez que o machismo sim seja falta louça para lavar, mas como esta é uma afirmação generalizada, fraca e incoerente, prefiro não me ater a ela. Até porque @s machistas que lavam louça se sentiriam a salvo se eu assim afirmasse, então não farei.

Arrisco dizer que o feminismo sempre esteve presente em minha vida de uma forma ou de outra. Eu sempre fui a inconformada, a “chata”, a que questionava “por que não?” e que conseqüentemente teve que ouvir que era mal educada e que mocinha não fazia aquilo. E tive sorte ou talvez azar de ter passado por algumas coisas durante a minha vida. Posso dizer que boas ou ruins, essas coisa me transformaram no que sou hoje e é um pouco como aquela música diz “E são tantas marcas/ Que já fazem parte/ Do que eu sou agora/ Mas ainda sei me virar”.

Desde a minha infância, sempre gostei de “coisas de meninos”, mas gostava de bonecas também. Não aquelas que parecem um bebê, eu gostava da Barbie e o engraçado é que eu gostava dela porque ela podia ser tudo: Pop star; bailarina; dentista; veterinária; etc. Talvez eu inconscientemente pensasse que a Barbie era uma “mulher emancipada”, hoje sei que não é assim, que nunca foi, mas gostava de gostar dela.

Sobre as “coisas de meninos”, eu sempre achei que elas eram mais interessantes, mais dinâmicas. Vibrava a cada comercial da Hot Weels com todas aquelas engenhocas de desafios que o carinho tinha que passar. Rapidez; velocidade; superação, aquele mundo dos meninos parecia mil vezes mais interessante do que as minhas Bárbies estáticas. Mas era coisa de menino, era azul, e eu era uma menina, uma mocinha. Aquilo não era para mim. O engraçado era que essa proibição não vinha da minha mãe, padrasto ou tia, vinha da sociedade que de alguma forma exercia esse poder de coerção e domínio sobre mim. Eu queria brincar com aquelas coisas, queria tê-las, mas de alguma forma algo me dizia que não era certo e como eu era criancinha, não entendia o porquê daquilo. Hoje sei que isso não passa de uma construção cultural, mas também não foi do dia pra a noite que aprendi isso, foi através de um lento processo de desconstrução desses “valores”.

No fim, brinquei muito com “coisas de meninos”, tive um Max Steel e um Homem-Aranha. Na 5ª série minhas HQ’s prediletas eram a do Homem-Aranha e do Spawn e sim, colocaram a minha sexualidade em questão por estes e outros comportamentos “fora do padrão”.

Foi só em 2008, porém, que o Feminismo entrou com tudo na minha vida. Foi como despertar de um sono profundo ou sair de um transe. Tudo ficou mais claro. 2008 foi o ano em que entrei para a Faculdade de Direito também.

Meu primeiro ano de faculdade foi revelador. Vários autores fantásticos me foram apresentados (Eric Hobsbawm, Norberto Bobbio, etc) por professores magníficos que foram para mim verdadeiros mestres e se engana quem pensa que @s melhores professoras e professores que tive foram @s de Direito. O professor Fernando Sala de sociologia jurídica e Maria Gabriela de Estudo do Homem Contemporâneo foram os que mais contribuíram para a minha formação humana – até porque o Direito em si, de humano, às vezes, não tem quase nada.

Foi também em 2008 que li o meu 1º livro propriamente feminista: Breve História do feminismo no Brasil (Maria Amélia de Almeida Teles) e o que mais me encantou na obra foi saber que ela havia sido escrita por uma ex-aluna da USF, segundo o que a bibliotecária me contou. Fiquei radiante por estar estudando ali.

Mais de um ano depois, tive a minha primeira aula de D. Constitucional com a memorável Eunice Aparecida de Jesus Prudente, outra mulher que eu admirava muito pelo seu conhecimento jurídico e atuação social. Naquela época eu já tinha me firmado no estudo da Violência Doméstica e estava querendo escrever algo simples – dadas as minhas próprias limitações – sobre a Constitucionalidade da Lei Maria da Penha e foi quando a prof. Eunice propôs um seminário com o tema livre, era minha chance! O meu tema, obviamente, foi a “Constitucionalidade da Lei Maria da Penha”.

Durante as pesquisas para o seminário, a prof.ª me aconselhou a procurar uma tal de “Amelinha”, que foi uma ex-aluna e que era uma feminista que militava aqui em SP e me falou ainda que militaram juntas na Constituinte e tudo mais. Foi então que me dei conta que essa Amelinha era a Maria Amélia, autora daquele livro que eu tinha lido anteriormente e fiquei eufórica.

Na primeira vez que liguei para a União de Mulheres de SP foi a própria Amelinha quem atendeu, fiquei extremamente nervosa com aquilo e gaguejei pateticamente algumas vezes, acho que hoje em dia ela nem se lembra disso. Ela, como sempre, foi muito solícita. Conheci o seu trabalho; o Projeto Maria, Maria; o Projeto Promotoras Legais Populares; e até o fantástico trabalho da Cia Kiwi de Teatro através do Projeto “Carne”.

O meu seminário ficou bem legal. Tanto a apresentação oral quanto a escrita ficaram dentro das minhas expectativas (fragmento da parte escrita) e até fiz esse vídeo bem simplório:

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À partir dali, virei efetivamente uma militante feminista. Em 2011, me formei no 17º Curso de Promotoras Legais Populares onde conheci pessoas maravilhosas com as quais aprendi muito e aprendo até hoje. Nesse meio tempo, tive a honra de palestrar sobre o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, na minha faculdade,  juntamente com a Amelinha.

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A Amelinha, aquela mulher que conheci primeiramente pelo livro Breve História do feminismo do Brasil, e só depois pessoalmente, é hoje uma pessoa muito importante para mim. Eu a admiro como mulher e militante pela sua força e empenho na luta pelos direitos das mulheres e principalmente por ter sido para mim uma base firme na militância, um farol que sei que sempre me guiará dentro dessa escuridão de injustiças sociais na qual vivemos. Graças a ela, hoje sou militante. Talvez se nada daquilo tivesse acontecido, eu também teria me tornado militante de uma forma ou de outra, mas fico feliz que tenha sido assim.

Fico feliz acima de tudo, porque foi graças ao feminismo e à militância que conheci pessoas maravilhosas como a Bia Cardoso, que me convidou para escrever no Blogueiras Feministas e que me sempre me surpreende por seu ativismo; a Elisa Gargiulo, que né? Nem preciso falar muito dessa mulher…e tantas outras com as quais milito, discordo, cresço e aprendo.

E hoje, apesar dos pesares, posso dizer que sou feliz, que sou completa e que sou feminista. Hoje posso gritar bem alto que “marcharemos até que tod@s sejamos livres!”

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[+] Ajudar a mãe a lavar a louça?

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

2 responses to “Como tudo começou…”

  1. Vinicius says :

    Nossa trajetória sempre vai mostrando os pontos principais da nossa formação. Que bacana que vc foi convidada pra escrever no BF. Muito bacana! 😀

    • Tica says :

      Eu também adorei e apesar de não postar muito por lá (e nem por aqui) por conta da falta de tempo, aprendi muito no BF!

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