Virginia Woolf: Profissões Para Mulheres e Outros Artigos Feministas

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Há um tempo atrás um amigo me mandou um link de uma promoção imperdível no Submarino. Era um Box com 6 livros da Virgínia Woolf: A Viagem, Noite e Dia, Entre os Atos, O Quarto de Jacob, Os Anos e As Ondas.

Apesar de já saber que ela era uma ótima escritora, nunca tinha lido nada dela e, por mais insano que possa soar, ela nem estava na minha lista de “livros que eu precisava ler antes de morrer”. Eu acabei comprando o box e foi um ótimo investimento porque foram 6 livros por APENAS R$30,00.

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Mas pasmem, não li nenhum livro do Box ainda. Ele está ali na minha estante fechadinho. Não creio que tenha sido por falta de interesse, nem por falta de tempo, afinal, li vários e vários livros depois de comprar essa coleção e mesmo com o ritmo frenético dos meus estudos, não me limitei a livros jurídicos. A única desculpa que posso dar é que simplesmente esqueci deles, ou não lembrei – atenham-se ao eufemismo que lhes for mais convincente.

Foi por mero acaso que Virgínia Woolf entrou em minha vida e por incrível que pareça, não foi aquele acaso que me fez comprar o Box. Acho que algumas pessoas chamariam de destino, ou coisa que valha.

Meu primeiro contato com a escrita de Adeline Virgínia Stephen foi com “Profissões para mulheres e outros artigos feministas”. Vi uma mocinha comentando sobre esse livro em uma lista de discussões que participo e me interessei, afinal, o título por si só já me atiçou e depois, ao procurar mais informações sobre o livro, acabei me convencendo que ele entraria para a minha lista de 2013. Este foi o primeiro sinal, teve mais um. Na mesma semana que fiquei sabendo da existência desse “achado”, uma amiga veio de POA pra visitar SP e – adivinhem – falou sobre esse livro. Citou, inclusive, que não estava achando ele pra comprar etc. e depois de indicar a ela o site onde achei o livro mais barato (esse aqui) fiquei pensando sobre essas gratas coincidências e comprei o livro na primeira oportunidade.

Infelizmente só pude ler ele agora e como era de se esperar, fiquei extasiada. Virgínia é magnífica. Sua escrita, sua crítica, tudo nela é fascinante. Me pergunto como consegui viver tanto tempo sem ter lido nada dela e acredito que você, quando a ler pela primeira vez, terá a mesma impressão.

O livro “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” é uma série de artigos que explora a questão de gênero através do “papel social” imposto à mulher e é composto por sete ensaios, sendo eles: “profissões para mulheres”; “Uma nota feminina na literatura”; “Mulheres romancistas”; “A posição intelectual das mulheres”; “Duas mulheres”; “Memórias de uma União das Trabalhadoras” e “Ellen Terry”.

Todos os ensaios possuem um enfoque único. Porém, em minha opinião, alguns destacam-se mais do que outros. Dentre eles posso citar, o que pode soar meio óbvio, o artigo “Profissão para mulheres”.

Nele a autora começa a falar sobre a sua própria profissão de escritora, mas acaba nos fornecendo uma visão geral da questão “mulher x trabalho” e acho que este recorte do ensaio consegue resumir muito sobre ele:

[…]quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. […] Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.”

Outro ponto interessante que a autora cita é a existência de um “Anjo do lar” que segundo ela, era o fantasma de uma mulher – seu alter ego, talvez – que a assombrava e com o qual teve que lutar para se tornar quem foi.

[…] vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura.”

E se vocês acham que o Anjo do Lar, aqui no Brasil, ganhou uma música que começa com “Amélia que era mulher de verdade…”, pensaram o mesmo que eu. Logo, infelizmente Virgínia estava errada achando que nós, pertencentes à geração mais nova, não entenderíamos o que seria esse tal Anjo do Lar. Esse modelo patriarcal de mulher. Esse domínio sobre nosso existir. Enfim, esse fantasma que nos assombra até os dias atuais.

Por fim, outro ensaio que teve um destaque para mim foi o “Memórias de uma União de Trabalhadoras”, que se mostrou interessante devido ao contraste entre classes de mulheres feministas e o que achei mais sensacional foi a consciência que a autora possuía de seus privilégios de classe média. Poucas pessoas hoje em dia conseguem fazer esse “simples” recorte até mesmo dentro do movimento feminista

Acho que era só isso que queria dizer sobre meu primeiro encontro com Virgínia Woolf.

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

4 responses to “Virginia Woolf: Profissões Para Mulheres e Outros Artigos Feministas”

  1. Maressa says :

    Adoro esse livro. Li de uma vez, em apenas uma tarde. O Anjo do Lar me gerou muitas reflexões, também. Estava pensando em escrever uma resenha para ele, mas acabei adiando.

    Parabéns pelo blog!

    • Tica says :

      Ah, assim que escrever me avise! Acho que o “Anjo do Lar”´renderia um belo post.

      Toda vez que leio essas feministas falando sobre suas experiências de luta tenho um misto de sensações contraditórias. A primeira é de extase, orgulho, admiração por essas mulheres que antes de nós lutaram por nossos direitos; a segunda é de tristeza por encontrar em suas escritas algumas pautas que ainda hoje são as nossas e ver que ainda há muito o que lutar e conquistar.

      Enfim, obrigada pelo carinho!

      Beijão!

  2. Daniela says :

    Sabe que depois que me indicou o site para comprar eu fiz imediatamente a compra e ele está guardadinho no que me recuso a chamar de estante, mas por falta de termo melhor, fico com ele. Mas depois desse post resolvi criar vergonha na cara 🙂

    • Tica says :

      Eu espero que curta o livro tanto quanto eu. Me rendi já no primeiro parágrafo!

      Se der, depois conta pra gente o que achou dele!

      Beijão!

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