A quem pertence o espaço público?

1176122_199954350208149_766889061_n

A quem pertence o espaço público? Digo, quem, necessariamente, pode ocupá-lo; usufruí-lo?

Em sua ingenuidade, você poderia simplesmente achar a pergunta retórica. Afinal, o espaço publico é PÚBLICO. Ou seja, é de todas(os) nós. E eu, talvez, se não me despisse de meus privilégios, diria que você tem razão. Mas isso seria uma utopia, pois sabemos que o espaço público tem dono.

O espaço público pertence ao patriarcado; à heteronormatividade; às pessoas cis*; aos cabelos lisos; à pele “clara”; aos corpos malhados; às roupas discretas e se formos mais longe, ao deus dos cristãos monoteístas. Isso faz com que o espaço público tenha o seu próprio público, um público seleto.

Ocupar o espaço público sem preencher os pré-requisitos de pelo menos um grupo acima é algo extremamente difícil, pois a coerção social para que você se enquadre nos padrões é violenta.

Essa violência em sua forma mais “branda” pode ser caracterizada pelo olhar de reprovação, acompanhado sempre daqueles sussurros perversos. Até aí tudo bem, isso pode ou não afetar a sua auto-estima – o que para alguns, por sua vez, pode ser uma experiência devastadora.

Ainda que seja complicado fazer um nivelamento da violência, acredito que o segundo estagio da manifestação desta no espaço público é a verbal: o “pssssiu”, “ei, gostosa”, “sorria, sua vadia”; “gorda!”; “sapatão”; “bixa”; “traveco”; “cabelo duro”; “volta pra senzala” e por aí vai. A verbalização de que a pessoa está inadequada(o) ou a objetificação contida em determinado discurso tem por finalidade diminuir e/ou ridicularizar ao ponto de dominar ou destruir quem ocupa “indevidamente” aquele espaço, é uma forma de por aquela pessoa à margem da sociedade invisibilizando-a enquanto indivíduo, anulando-a.

A violência verbal, infelizmente não é algo que basta em si, é acompanhada por gestos, sussurros, olhares de reprovação e, muitas vezes, resulta em violência física, que vem a ser, o terceiro estágio que eu iria citar: a “encoxada” no transporte público – que não se enganem, pode facilmente ser caracterizado como estupro; o estupro em si, com penetração; a agressão física incitada pelo ódio / repúdio às minorias, dentre tantos outros exemplos deploráveis. Esta violência varia de atos isolados a casos de genocídio de negras(os) nas periferias; assassinatos diários à transexuais/travestis nos becos escuros da cidade; o estupro corretivo – que caracteriza uma atitude sexista e quase sempre invisibilizada. Tudo para conter grupos que se rebelam, tática que até agora tem funcionado.

Para ocupar o espaço público, você precisa esconder o seu próprio ser, precisa enquadrar-se para se sentir segura (o) ou lutar contra tudo isso todos os dias. Diante deste quadro no qual temos os valores da “classe dominante” sendo impostos coercitivamente a nós, ocupar o espaço público transgredindo suas “regras”; suas “convenções sociais”, torna-se um ato político.

972232_392492580856046_1346482057_n

É por isso que temos a Marcha das Vadias; o Grito dos excluídos; Os Rolêzinhos (?); e mais atualmente, o Movimento das pessoas Transexuais pelo direito de usar o banheiro público. Sobre este último, recomendo a leitura deste post do Blog Gênero à Deriva e este vídeo.

Apesar de todo o sistema estar estruturado de forma piramidal e nos dar a falsa impressão de que há alguém lá em cima que dá as ordens e nos guia, é preciso fazer uma reflexão: O que seria do topo da pirâmide sem a sua base?

Talvez, e somente talvez, a resposta a essa pergunta seja capaz de mudar a resposta que dei à pergunta inicial do texto: A quem, realmente pertence o espaço público?

Anúncios

Tags:, ,

About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Feminismo Ráiot

música + feminismo + faça você mesma

FeminismUrbana

Textos, artigos, imagens, quadrinhos, opiniões. A idéia é juntar quem está pensando as cidades na perspectiva feminista, no Brasil e na América Latina.

feminismosemdemagogiaOriginal

Blog da página Feminismo Sem Demagogia - Original

Alemão com Frau Santana

A Alemanha bem perto de você.

O Fim da Eternidade

(Isaac Asimov)

Colunas Tortas

mais que uma opinião

Marcha Mundial das Mulheres

Feminismo 2.0 até que todas sejamos livres!

Blogueiras Negras

"Quem não quer raciocinar é um fanático;quem não sabe raciocinar é um tolo; quem não ousa raciocinar é um escravo"

Quem o Machismo matou hoje?

No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias vítimas da violência doméstica. Você sabe quem elas são?

Favela Potente

"As coisas não nasceram para dar certo, somos nós que fazemos as coisas acontecerem" - Sérgio Vaz

Transfeminismo

Feminismo Intersecional

filosofia cinza

Blog da Márcia Tiburi

%d blogueiros gostam disto: