A quem pertence o espaço público?

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A quem pertence o espaço público? Digo, quem, necessariamente, pode ocupá-lo; usufruí-lo?

Em sua ingenuidade, você poderia simplesmente achar a pergunta retórica. Afinal, o espaço publico é PÚBLICO. Ou seja, é de todas(os) nós. E eu, talvez, se não me despisse de meus privilégios, diria que você tem razão. Mas isso seria uma utopia, pois sabemos que o espaço público tem dono.

O espaço público pertence ao patriarcado; à heteronormatividade; às pessoas cis*; aos cabelos lisos; à pele “clara”; aos corpos malhados; às roupas discretas e se formos mais longe, ao deus dos cristãos monoteístas. Isso faz com que o espaço público tenha o seu próprio público, um público seleto.

Ocupar o espaço público sem preencher os pré-requisitos de pelo menos um grupo acima é algo extremamente difícil, pois a coerção social para que você se enquadre nos padrões é violenta.

Essa violência em sua forma mais “branda” pode ser caracterizada pelo olhar de reprovação, acompanhado sempre daqueles sussurros perversos. Até aí tudo bem, isso pode ou não afetar a sua auto-estima – o que para alguns, por sua vez, pode ser uma experiência devastadora.

Ainda que seja complicado fazer um nivelamento da violência, acredito que o segundo estagio da manifestação desta no espaço público é a verbal: o “pssssiu”, “ei, gostosa”, “sorria, sua vadia”; “gorda!”; “sapatão”; “bixa”; “traveco”; “cabelo duro”; “volta pra senzala” e por aí vai. A verbalização de que a pessoa está inadequada(o) ou a objetificação contida em determinado discurso tem por finalidade diminuir e/ou ridicularizar ao ponto de dominar ou destruir quem ocupa “indevidamente” aquele espaço, é uma forma de por aquela pessoa à margem da sociedade invisibilizando-a enquanto indivíduo, anulando-a.

A violência verbal, infelizmente não é algo que basta em si, é acompanhada por gestos, sussurros, olhares de reprovação e, muitas vezes, resulta em violência física, que vem a ser, o terceiro estágio que eu iria citar: a “encoxada” no transporte público – que não se enganem, pode facilmente ser caracterizado como estupro; o estupro em si, com penetração; a agressão física incitada pelo ódio / repúdio às minorias, dentre tantos outros exemplos deploráveis. Esta violência varia de atos isolados a casos de genocídio de negras(os) nas periferias; assassinatos diários à transexuais/travestis nos becos escuros da cidade; o estupro corretivo – que caracteriza uma atitude sexista e quase sempre invisibilizada. Tudo para conter grupos que se rebelam, tática que até agora tem funcionado.

Para ocupar o espaço público, você precisa esconder o seu próprio ser, precisa enquadrar-se para se sentir segura (o) ou lutar contra tudo isso todos os dias. Diante deste quadro no qual temos os valores da “classe dominante” sendo impostos coercitivamente a nós, ocupar o espaço público transgredindo suas “regras”; suas “convenções sociais”, torna-se um ato político.

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É por isso que temos a Marcha das Vadias; o Grito dos excluídos; Os Rolêzinhos (?); e mais atualmente, o Movimento das pessoas Transexuais pelo direito de usar o banheiro público. Sobre este último, recomendo a leitura deste post do Blog Gênero à Deriva e este vídeo.

Apesar de todo o sistema estar estruturado de forma piramidal e nos dar a falsa impressão de que há alguém lá em cima que dá as ordens e nos guia, é preciso fazer uma reflexão: O que seria do topo da pirâmide sem a sua base?

Talvez, e somente talvez, a resposta a essa pergunta seja capaz de mudar a resposta que dei à pergunta inicial do texto: A quem, realmente pertence o espaço público?

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada empresarial e artesã

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