Por que você milita?

perguntas_frequentes

Um dia desses fui reencontrar umas amigas no bar. Uma delas, não via há anos, eu acho. Conversamos sobre diversas coisas, bebemos e comemos, claro. Em uma dessas conversas, entramos em um dos assuntos que mais me atiçam: Violência contra Mulher.

Compartilhamos várias experiências vivenciadas por cada uma de nós, ainda que fora da militância. Contei a elas muitas estatísticas e informações que desconheciam, falei das dificuldades da militância, da violência institucional que as mulheres sofrem nas delegacias, hospitais e no judiciário. Falei das mulheres que morrem antes de conseguir uma medida protetiva – que chega a demorar cerca de 3 meses para ser concedida, apesar da Lei prever 48 horas; Falei que há municípios em SP que nem possuem delegacia comum e que há delegados que se negam a lavrar B.O; Contei os casos dos P.M que coagem as mulheres a não denunciarem. Enfim, desabafei.

Foi então que uma amiga me fez uma pergunta mais ou menos neste sentido: “Como você consegue continuar lutando sabendo que o mundo é assim?!”. Num primeiro momento não tive reação. Falei algumas coisas fortalecedoras, mas acho que no fundo estava falando pra mim mesma. Militar realmente não é fácil. Lutar contra esse sistema opressor é algo que às vezes engole a gente. Tem dia que as coisas parecem não mudar.

Passei a semana querendo encontrar uma resposta completa para aquela pergunta, uma resposta definitiva.

Pensei em todas as mulheres que vieram antes de mim e que me possibilitaram de ser hoje quem sou; pensei nos direitos que conquistaram para mim e que pode ser que elas mesmas nem chegaram a usufruir; pensei nas marcas da violência que carregam em seu corpo e mente; pensei nos questionamentos que levantei com os textos “quem tem medo do feminismo?” e “o que o seu anticoncepcional tem a ver com o meu feminismo?”. E a conclusão em que cheguei, foi que a gente não faz isso por nós mesmas, a militância não é um ato egoísta. Fazemos militância por aquelas mulheres que não conhecemos e por aquelas que não puderam ser conhecidas. Fazemos isso pelas mulheres.

Contudo, acho que quem é da militância sabe, falar da evolução histórica dos direitos da mulher e mais, falar que militamos para construir uma sociedade mais justa e igualitária, não soa muito como uma resposta concreta para aquela pergunta. Parece que estamos teorizando algo, e as pessoas querem respostas palpáveis. Por isso, por um momento, achei que não conseguiria dar uma resposta para essa minha amiga.

Ontem, estava na Pós Graduação e entrei no facebook pelo celular. Tinha uma mensagem lá de uma conhecida e num primeiro momento pensei em ler só quando chegasse em casa, mas acabei lendo durante a aula. Na mensagem ela estava me falando que conseguiu romper o ciclo da violência doméstica, que estava bem e que estava se preparando para voltar ao mercado de trabalho. Fiquei muito emocionada ao ler aquilo e uma lagrima safada borrou um pouco a minha maquiagem. Acho que poucas pessoas conseguiriam entender o que eu senti naquele momento, mas sem ao menos saber, aquela moça respondeu à pergunta da minha amiga.

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About Tica

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É Viciada em Lego, apaixonada por ficção científica, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif's e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada

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